24º Correntes de Escrita (2023) – Póvoa de Varzim

 

Este ano as “24º Correntes de Escrita” de Póvoa de Varzim, decorreram de 14 a 18 de fevereiro e contaram com a presença da professora Maria José Moura de Castro e um grupo de alunos da USG.

As Correntes de Escrita são nuvens de algodão doce que deslizam suavemente, transportando o pensamento livre e a imaginação dos escritores até embaterem nas paredes, no público que transborda dentro da sala e, depois, qual rio que ultrapassa as margens se vão disseminando pelo exterior. Os ventos, suaves ou tempestuosos, atingem-nos em profundidade e vão semeando a cultura e as ideias de frutos exóticos, desconhecidos, que vamos assimilando até lhe tomarmos o gosto para depois os juntarmos ao cesto em que já transportamos aqueles de cujo sabor já estávamos apaixonados.

Assim são os Livros. Assim são as Correntes de Escrita.

Este ano os temas andaram à volta da poesia de Ana Luísa Amaral.

Para nós foi impossível assistir a todas as palestras e fica-nos o sentimento de perda, daquele doce que comemos sem haver lugar para mais, mas que, a ser possível, não deixaríamos ficar nem uma migalhinha. Ah…se pudéssemos, comeríamos o bolo na totalidade. Assim é a gula dos Livros!

No último sábado as conversas à volta das mesas foram excelentes.

“ Se o real me parece uma coisa desigual” foi o tema para a mesa nove onde se sentaram Afonso Reis Cabral, Bernardo Pinto de Almeida, Gonçalo M. Tavares, Marcial Gala, Patrícia Portela e João Golbert como moderador.

Todos eles conseguiram transformar a realidade através do seu pensamento, da sua imaginação, criando imagens nas nossas memórias, distorcendo o real no irreal e vice – versa, criando igualdades e desigualdades ao sabor da vida.

Através da utilização da fita métrica utilizada por Gonçalo M. Tavares para responder ao “Quanto mede a morte” e outras realidades, da voz do escritor cubano Marçal Gala que nos mostrou o irreal da felicidade cubana em contraposto ao sorriso dos portugueses, assim como da utilização livre e pensada das palavras através do Real/Irreal, da Igualdade/Desigualdade, por Patrícia Portela e por Afonso Reis Cabral, este último trineto de Eça de Queiroz, um jovem que herdou o talento do antepassado, a manhã correu célere a ponto de nem darmos pelo avanço dos ponteiros do tempo.

De tarde “ Escrevo para a posteridade do que é nada” foi o tema  á volta do qual dançaram as palavras de Pedro Eiras, Sandro William Junqueira, Onésimo Teotónio Almeida e de Maria Flor Pedroso, a moderadora da mesa.

Rimos, rimos muito, com as palavras saltitantes, com as imagens divertidas que saltaram daqueles génios, alguns ainda jovens como o William Junqueira que nos falou da história da sua família de um modo jocoso, mas respeitoso e das imagens que deixaram para a posteridade, um nada cheio de tudo.

Também Pedro Eiras nos encantou através dum extenso texto de improviso com o qual de vez em quando “se perdia e se achava”, nas suas próprias palavras, simulando a leitura de um apontamento inexistentes e que foi prontamente denunciado por Maria Flor Pedroso. De Onésimo assistimos ao que ele já nos vem habituando, a alegria das palavras num rosto vivido, mas para quem a vida continua a ter o mesmo encanto.

Nos intervalos tivemos ainda a oportunidade de assistir à apresentações de livros, às homenagens a esta ou aquela figura, a título póstumo, como foi  a de Nélida Piñon, a ouvir sorrateiramente as conversas informais entre todos e a deliciar-nos com o toque dos livros expostos.

A arte e a beleza também estiveram presentes através das incríveis mãos de Paulo Sérgio BEju, um artista que transformou 23 quilos de sal numa maravilhosa imagem, à volta dum retângulo escuro, a representar a morte para onde todos caminhamos e, usando como pano de fundo, o chão de uma das salas.

São momentos altos em que a cultura está presente, em que sentimos que a cultura ainda é Rainha.

Etelvina S. Ferreira

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