Festas na Aldeia

Imagem : “ A Dança” – Paula Rego

– Rui Brito da Fonseca

Acabado o recolhimento do inverno com a chegada da apoteose pascal anunciadora da Primavera, tempo mais ameno e de condescendência social aceite pela Igreja, iniciavam-se discretamente os preparativos das festas que anunciavam o Verão.

A vinda do bom tempo, o calor e mais luz durante o dia eram sentidos com animação por toda a gente, especialmente pela mocidade.

Em Maio, após a romaria da Senhora do Salto, lá para Aguiar de Sousa, pela aldeia começavam a ouvir-se, aqui e ali, os altifalantes a debitar músicas alegres. Desde a Bela Vista, Erverdosa, Vila Verde, Tardariz, Mó e Passal, ao final da tarde das sextas-feiras, estendendo-se pelo fim de semana, as cornetas electrónicas atiravam aos ares músicas e cantigas, emprestando um ambiente mais leve de risonha alegria de viver. De longe a longe, um estralejar débil de um foguetito de 15 tostões, ajudava à animação. O pretexto eram as músicas dedicadas a alguém conhecido, para angariar alguns proventos para causas sociais ou lúdicas. Uma pessoa necessitada de ajuda, ou a pequena agremiação desportiva local, bem precisavam de apoio, que nunca era em demasia.

O improvisado locutor de serviço ia anunciando a quem era dedicada esta ou aquela música, pagando o mandante cerca de um escudo por tal serviço. Muitas das dedicatórias tinham um colorido enriquecedor: “- atenção ao recinto, encontram-se neste recinto duas anónimas, sendo elas Micas Salta e Guida Borralheira, que dedicam aos seus excelentíssimos “homes” o disco do António Mafra, “tira a mão do ouriço”…

Também em alguns desses sítios se armava um pequeno recinto, onde se serviam bebidas e petiscos e, mais importante, era o bailarico com as moças das redondezas, que serviam à mesa e eram disputadas pela rapaziada que ali parava ao cheiro de saias. Assim, fazia-se o leilão da bolachinha que a donairosa donzela, ataviada de avental engomado no meio do estrado da dança, exibia numa bandeja. Por vezes, o biscoito era substituído por uma garrafa de vinho ou cerveja. O locutor anunciava “5 escudos” e lá começava o leilão, disputado pelos rapazes que andavam de olho na miúda. Ia subindo com lances de um escudo pelos vários interessados, até que o leiloeiro dizia : “-ninguém dá mais.?! um, dois e três”. O vencedor, depois de pagar e ficar com o prémio exibido, tinha direito a uma dança, que escolhia do minguado reportório disponível: um tango, uma valsa ou outra cantiguinha da moda, mas não muito lenta para não haver abusos… O arrematante sozinho, ou com quem convidasse, dançava então no pequeno palco, ao centro do sempre mencionado recinto.

Entretanto, as festas dos santos populares aproximavam-se. A cada uma delas, havia reforço da animação. O S. João era normalmente festejado com fogueiras, na véspera, indo os foliões altas horas para o Porto, nos eléctricos em serviço especial nessa noite, acabando a festança ao raiar do dia, altura em que, arrasados, regressavam a casa. Pelo S.Pedro, havia festa da grande. O padroeiro tinha também direito a balões, cerimónia religiosa com sermão, procissão com anjinhos e crianças das cruzadas pelas ruas da Covilhã, acompanhada pela filarmónica com foguetada forte. E arraial junto à igreja com fogo de artifício, o que na altura era acontecimento raro. Nesse dia, os altifalantes paravam, pois o povo acorria ao adro, mas nas semanas seguintes prosseguia a animação dos bailaricos com músicas à maneira.

…E lá por Agosto era tempo das Festas da Aldeia no largo da Covilhã. Ali sim, o recinto era mais amplo e cuidado, com estrado de dança ao meio e ao fundo um palco para o conjunto musical. Nas noites de sábado e domingo a animação era a sério. A Orquestra Violeta, mas que todos conheciam por Jazz Violeta, dos irmãos Faustino, tinha lugar cativo, brindando os presentes também com boleros, rumbas e chá- chá- chá, cabendo aos vencedores dos leilões escolher a preferência. A receita destes festejos era canalizada para as Festas do Padroeiro, ou para a Banda Musical da terra e, assim sendo, mudavam de nome para Festas da Lira.

Arnaldo de Castro Gandra era um gestor nato, proprietário de uma mercearia e tasco, armador dos funerais, fornecedor de mercearias, eu sei lá que mais!… pelo que a organização dirigida pelo Sr. Arnaldo Gandra primava pela qualidade, andando tudo e todos a toque de caixa com o seu imperativo vozeirão. Quando ele entendia que a música executada pela orquestra era mais prolongada e os dançarinos continuavam a rodopiar no estrado, não se inibia, e lá vinha o vozeirão do Sr. Arnaldo juntado aos gestos largos, dirigindo-se aos músicos e ao leiloeiro: “- Pára a música, chega de roço. Dar duas voltas e segue outro leilão!”… Sempre a visão comercial a gerir o que até não era do bolso dele…

As Festas da Aldeia duravam até Setembro, as dos altifalantes, com a chegada dos primeiros frios outonais, a convidar as pessoas a recolher por casa, iam emudecendo, cessando uns após outros as suas esganiçadas melodias, de modo inverso ao seu surgimento meses antes. Começava a longa hibernação, que se prolongava até à Primavera do ano seguinte.

Todas estas festas e festinhas locais da minha aldeia, acabaram também nos anos subsequentes ao 25 de Abril de 1974. A sociedade modificou-se por completo, com muitos dos seus valores e usos também considerados obsoletos. Penso mesmo que as meninas prendadas de hoje já não se prestam a segurar uma bandeja com a bolachinha e a ver os rapazes licitar a sua dança.

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